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SEMÂNTICA HISTÓRICA - GESCOG

O GESCOG: CAMINHOS DE PESQUISAS EM SEMÂNTICA COGNITIVA NA BAHIA

 

UM BREVE PANORAMA DOS ESTUDOS SEMÂNTICOS

 

A semântica, enquanto área que se dedica a construir saberes a propósito do significado, constituiu-se no século XIX. Michael Bréal foi considerado, no devir da elaboração da história dessa mesma semântica, o seu fundador. Embora, como ressalte Ullmann (1965), na Alemanha dessa mesma centúria, Reisig também já realizasse pesquisas que se dedicavam aos problemas do significado. No panorama de sua fundação, a semântica surgiu da necessidade de se entenderem as questões de significação que eram obliteradas pelos linguistas e o próprio Bréal, no texto que pode ser considerado a certidão de batismo dessa área do conhecimento humano, reclama da falta de atenção acerca de tais questões:

en effet, c’est sur le corps et sur la forme des mots que la plupart des linguistes ont exercé leur sagacité: les lois que président à la transformation des sens, au choix d’expressions nouvelles, à la naissance et à la mort des locutions, ont été laissées dans l’ombre ou n’ont été indiquées qu’en passant (BRÉAL, 1883, p. 132).  

 

Nos primórdios da semântica, como deixam transparecer as palavras vanguardistas de Bréal, os trabalhos pioneiros direcionavam-se em face de questões de cariz histórico, de tal modo que se buscavam explicar as leis que governavam a mudança do significado lexical.

 Já, com o advento do estruturalismo, os estudos voltaram-se à sincronia, ao sistema linguístico. Eugénio Coseriu, um de seus baluartes, enfocava, em sua lexemática, a estrutura do léxico, de tal forma que o significado abordado era essencialmente o lexical, situado em um dado lapso de tempo. Como em todo estruturalismo, primava pelas dicotomias[1], de modo a distinguir entre a) coisa e linguagem; b) linguagem primária e metalinguagem; c) sincronia e diacronia, d) técnica do discurso e discurso repetido; e) arquitetura e estrutura da língua (língua histórica e língua funcional); f) sistema e norma da língua; g) relações de significação e relações de designação. (COSERIU, 1986, p. 95). E no âmbito dos estudos de inspiração estruturalista, foram particularmente desenvolvidos trabalhos sobre os campos léxicos, ainda que se fizessem alguns estudos a propósito das solidariedades léxicas.

 

Se a vertente europeia dos estudos semânticos estruturais, para além dos contributos de Coseriu, pode contar com os ensinamentos de Pottier (1974), com as teses de Trullijo (1970), de Vilela (1978), entre outras, o lado norte-americano do estruturalismo, por outro lado, mostrou-se resistente ao tratamento de assuntos semânticos. Bloomfield (1933) acreditava que o estabelecimento dos significados seria o calcanhar de Aquiles dos estudos linguísticos. É fato que, no espaço estadunidense, as questões do significado ou não foram contempladas, ou apenas foram abordadas de modo secundário. 

            No devir da história, a semântica não galgou lugar de destaque entre os gerativistas que davam primazia à sintaxe, de modo que alguns pesquisadores, insatisfeitos com a pouca atenção dada por Chomsky à semântica, e certos de que a significação encontrava-se no cerne da linguagem, fundaram a semântica interpretativa, com destaque para Katz e Fodor (1964), e a semântica gerativista, que tem como seu principal expoente a figura de Lakoff (1963).

 

Lakoff, consciente de que o gerativismo não poderia dar conta de questões semânticas primordiais, distanciou-se dos pressupostos chomskianos, de tal sorte que se tornou um dissidente do gerativismo[2]; assim, junto a Johnson (LAKOFF; JOHNSON, 1980), e, concomitantemente a outros pesquisadores, como Langacker (1987; 1991) e Talmy (1978; 1983; 1985), acabou fincando os pilares da Linguística Cognitiva, modelo que reúne um arquipélago de teorias que põem o significado no centro das atenções de suas reflexões.  

A Linguística Cognitiva reúne modelos diversos que estudam variados fenômenos linguísticos, mas as suas reflexões podem inclusive extrapolar questões de língua, de forma a enfocar outras linguagens, a exemplo das imagéticas, e assim sendo vertentes linguístico-cognitivas, como a Teoria da Metáfora Conceptual, podem dar conta de explicar aspectos concernentes a outras linguagens ou ainda as suas interfaces.  

Apesar de haver pontos divergentes, os cognitivistas acham-se unidos ao seguirem as algumas premissas, quais sejam: 1) a linguagem é um fenômeno interconectado a outras faculdades cognitivas, como a percepção, a memória e a imaginação; 2) a linguagem possui natureza simbólica; 3) o significado é essencial à linguagem; 4) a linguagem é mais ou menos diretamente motivada por experiências humanas corpóreas, físicas, sociais e culturais; 5) as dicotomias atravancadoras da percepção da complexidade dos fenômenos linguísticos perdem valor. Assim, do ponto de vista filosófico, derruba-se a dicotomia mente e corpo, já do linguístico, caem aquelas que distinguem conhecimento enciclopédico e linguístico, significado literal e figurado, semântica e pragmática, léxico e gramática, sincronia e diacronia, língua e fala/competência e desempenho; limites dicotômicos passam a ser compreendidos como difusos e não poucas vezes interpretados como contínuos; 4) as análises devem ser baseadas no uso linguístico e ainda 7) os estudos devem estabelecer diálogos com outras áreas do saber humano, como as neurociências, a psicologia, a antropologia, a sociologia, a história e a biologia.

 

No âmbito dessa linguística, em meados dos anos de 1980, surgiu a semântica cognitiva, uma espécie de reação ao modelo semântico existente, marcadamente, formalista. Assim como a linguística cognitiva, essa semântica, para além de ser uma teoria homogênea e unificada, caracteriza-se por ser uma abordagem da linguagem e da cognição que engloba diferentes autores com interesses e campos de estudos diversos, embora compartilhem também pressupostos comuns a respeito da linguagem e da cognição. Entre os seus objetos de investigação, acham-se a conceptualização, a categorização, a prototipia, os fenômenos de estruturação do significado, a polissemia, as categorias de nível superordenado, de base e subordinado, além da metáfora, da metonímia e da mesclagem conceptual.

 

A SEMÂNTIVA NA BAHIA: UMA SEMENTE A FRUTIFICAR

 

Na Bahia, não diferentemente de outros espaços brasileiros, os estudos semânticos não obtiveram inicialmente um espaço propício ao seu desenvolvimento, já que outras questões linguísticas necessitavam de pronto atendimento, de tal modo que a realização de pesquisas de caráter semântico coube aos filólogos, afora a facção de alguns trabalhos realizados pela sua escola dialectológica. No seio da filologia baiana, os trabalhos caracterizavam-se, a princípio, por terem cunho historicista, onomasiológico e lexical, destacando-se os estudos de Gama (1969), Telles (1971), Souza (1997), Maranhão (1997) e Almeida (2000). Mais recentemente, alguns trabalhos nortearam-se pelas premissas do estruturalismo, a exemplo do doutoramento de Almeida (2007), embora não se tenha deixado de seguir uma linha mais descritivista interpretativa como ocorre com o de Coelho (2003).  Há mais pouco tempo, certos estudos têm seguido os pressupostos teóricos da linguística cognitiva, especificamente, da semântica cognitiva, como o projeto de Pereira (2008-2013), a tese defendida por Santos (2011) e os doutoramentos em curso de Moreira e de Leite, além das pesquisas de Almeida (2010-2014).

 

Ocorre que, de fato, poucos foram os estudos feitos até hoje no âmbito da semântica em território baiano e até a década de 60 do século XX, portanto, há pouco mais de 50 anos, na França, Greimas (1966) afirmava ser a semântica a prima pobre da linguística. Se na França, e, ainda, nos Estados Unidos, hoje já produzem fecundamente pesquisa em semântica, o Brasil, por sua parte, tem despontado como um polo profícuo que tem produzido diferentes estudos nessa área e a Bahia tem procurado acabar com uma lacuna inconcebível, considerando-se o atual momento fecundo dos estudos linguísticos, em que a semântica tem garantido lugar de destaque. Assim, entre outros estudiosos, Almeida têm se dedicado, desde 2008, ao estudo da semântica em sua vertente cognitiva e, no final de 2009, projetou o GESCOG – Grupo de Estudos em Semântica Cognitiva – que, associando-se ao PROHPOR – Programa para a História da Língua Portuguesa, começou efetivamente a funcionar em 2010. Desde lá, seus integrantes reúnem-se semanalmente a fim de debater textos dos mais eminentes teóricos dessa área do saber, para discutir aplicações da teoria, a fim de propor uma leitura brasileira da semântica cognitiva, que não se restrinja a importar e aplicar aqui a semântica cognitiva estadunidense.

 

Para além de discutir a produção em semântica cognitiva, o GESCOG objetiva, mais especificamente, estudar fenômenos semânticos, com base no suporte oferecido pela Linguística Cognitiva e por outras áreas do saber, uma vez que desenvolve, na medida do possível, estudos interdisciplinares, com aportes da filosofia, da história, da geografia, da sociologia, da antropologia, da psicologia, da biologia, entre outras áreas que contribuam, de algum modo, para o entendimento da conceptualização, consequentemente, do significado.

 

É objetivo do grupo, também, formar continuamente discentes-pesquisadores, desde a Iniciação Científica ao mestrado e ao doutorado, de tal modo que visa à formação de indivíduos capazes de desenvolver pensamento crítico acerca da semântica e de multiplicar conhecimento a propósito dessa área do saber hominal. Almeja, ainda, no plano do processo educativo, promover o intercâmbio de estudantes brasileiros e estrangeiros que, por ventura, se interessem pelos estudos semânticos realizados.

 

Além disso, o grupo busca interagir com outras universidades baianas, de modo que estabeleceu parceira com a UNEB, especificamente, com o campus II, em Alagoinhas, e com o XIV, em Conceição do Coité. No primeiro, há uma extensão do grupo sob a coordenação da professora Elisângela Santana dos Santos e, no segundo, será implantado, em breve, outro polo, que contará com a coordenação da professora Neila Maria Oliveira Santana.

 

 

 

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[1] Coseriu, porém, foi um dos primeiros a insurgir contra as dicotomias estruturalistas ao estabelecer o conceito de norma e ao fundar assim uma perspectiva terciária nos estudos sobre a língua. Mesmo assim, ele não desenvolveu, no âmbito da sua lexemática, a semântica da norma, de sorte que apenas assinalou a existência de tal possibilidade.

 

[2] O rótulo semântica, como se sabe, conglomera arquipélagos teóricos, com objetos e metodologias distintos. Há, pois, várias semânticas que geralmente são especificadas com certo epíteto, a exemplo da semântica lexical, da semântica estrutural, da semântica formal, da semântica argumentativa, da semântica da enunciação ou enunciativa, da semântica cognitiva, da semântica cultural; isto para citar apenas as semânticas mais divulgadas no espaço brasileiro. Não se pode deixar de mencionar também o desenvolvimento concomitante de duas outras semânticas: a formal e a argumentativa. Aqui, não abordadas por não fazerem parte da tradição dos estudos históricos desenvolvidos na Bahia.

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