ROSA VIRGÍNIA MATTOS E SILVA: 80 ANOS

 

 

No ano de 2020, a saudadosa Rosa Virgínia Mattos e Silva, fundadora do PROHPOR, completaria 80 anos, no dia 27 de julho. Por conta desse fato, o PROHPOR preparou, para o mês de julho, mês de nascimento de Rosa, uma exposição que celebra a sua memória. Serão apresentadas fotos de variados acervos e depoimentos de amigos, colegas, ex-orientandos e admiradores do trabalho dessa que foi uma das mais importantes linguistas do Brasil. (Comissão organizadora: Mailson Lopes (UFBA), Mariana Fagundes (UEFS), Pedro Daniel Souza (UNEB) e Natival Simões Neto (UEFS) | Estudantes colaboradores: Iago Santiago (UEFS) e Taine Rosário (UEFS)).  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rosa Virgínia no IV Congresso Nacional de Estudos Linguísticos e Literários , na UEFS, em 1998.

Foto do acervo de Pedro Daniel Souza 

 

 

Rosa: mestre, colega, amiga.

 

Sônia Bastos Borba Costa

Rosa das rosas e Fror das frores

Dona das donas, Senhor das Senhores

(Cantiga de louvor a Santa Maria, Afonso X)

 

 “Se podes olhar, vê; se podes ver, repara”. Tomei emprestado de Saramago essas palavras, para sugerir que prestem atenção ao nome dela: Rosa Virgínia Barreto de Mattos Oliveira e Silva. Foi nosso colega, Ildázio Tavares, que também já se foi, poeta que era, quem me chamou a atenção para isso. Um nome quase completamente composto de antropônimos referentes a elementos da natureza, enriquecido pelo “Virgínia”, que evoca pureza, e que me permito estender, livremente, para “verdadeira, autêntica”. Um nome que evoca a ausência de artificialismos, tal qual ela.

 

Conheci Rosa (como a chamava no cotidiano) em 1981, na sala do Laboratório de Fonética do Instituto de Letras, prédio de Nazaré, onde trabalhavam os professores de língua portuguesa, capitaneados pelo Prof. Nelson Rossi. Eu era, à época, Professora Colaboradora, ela cursava o seu Pós-Doutoramento no Rio e estava em visita aos colegas. No ano seguinte, 1982, tive a honra e a alegria de ser sua aluna, no Mestrado e, desde então, começamos um diálogo que se foi cristalizando em parte fundamental da minha formação acadêmica.

          

Ela foi minha orientadora no Mestrado e no Doutorado, por isso posso dizer que Rosa sabia fazer seu orientando encontrar o caminho que fosse mais adequado às suas condições e o mais agradável para ele, portanto, também o mais produtivo, nem que para isso ela, como orientadora, tivesse de se desviar intelectualmente dos seus interesses mais imediatos e mais caros, uma disponibilidade raríssima na vida acadêmica.

 

Vou destacar alguns momentos da nossa convivência:

O PROHPOR – Em 1988, ela me disse, de maneira simples, quase casual, mais ou menos o seguinte: “Que tal se nós, que gostamos de pesquisar história do português, nos organizássemos em um grupo de pesquisa?” Foi a primeira menção que ela me fez em relação àquele que viria a ser o PROHPOR (feliz denominação sugerida por Dante Lucchesi). Para nossa alegria, posteriormente, ela chamou o PROHPOR de “um parto fácil e agradável”.

             

O SEU CONCURSO PARA TITULAR – Presenciamos um momento esdrúxulo na história da universidade brasileira, ao vermos a nossa mestra, em decorrência do enorme lapso temporal em que a UFBA não abrira vagas para professores titulares, estar se submetendo à avaliação de uma banca composta por colegas que, como bem disse Carlos Alberto Faraco, um dos componentes, tinham sido formados pelo seu saber, pelas suas aulas, pelos seus livros.  

         

O ROSAE - Em 2007, Tânia Lobo e Américo Machado Filho resolveram organizar o primeiro Congresso Internacional de Linguística Histórica, em sua homenagem. Sem dúvida, essa foi uma inspiração abençoada dos colegas. Nós o realizamos em julho de 2009, durante a semana do seu aniversário – 27 de julho – num hotel a beira-mar, o que a agradou particularmente.

    

A ENTREGA DO TÍTULO DE PROFESSOR EMÉRITO - O título lhe foi concedido pelo Conselho Universitário da UFBA, a partir de sugestão de Américo Machado Filho ao nosso Departamento. Preparamos a cerimônia em comum acordo com o Cerimonial da Reitoria, Américo à frente, e me coube a honra e a alegria de fazer o papel de mestre de cerimônia.

           

Rosa se dedicou da maneira mais completa e fiel ao estudo da formação e funcionamento da língua portuguesa em Portugal e no Brasil. Uma vez lhe disse que o português, sobretudo no seu período arcaico, era o seu crochet, porque ela me disse que esse era verdadeiramente o seu hobby, retrucando insinuações de outros de que ela deveria divertir-se, desenvolver um hobby.

 

Bem, já me alonguei demais, estou até fazendo jus ao apelido de “grilo falante” que ela me concedeu. Para finalizar, quero registrar os agradecimentos que lhe fiz, respectivamente, na minha dissertação de Mestrado e na minha tese de Doutorado:

 

À minha orientadora, Rosa Virgínia Mattos e Silva, que me proporcionou viver na prática o que entendo dever ser a respeitosa, estimulante e afetuosa relação mestre/discípulo.

À Profª Drª Rosa Virgínia Mattos e Silva, orientadora, colega e amiga, sempre presente, pelo exemplo de trabalho intelectual e pela influência marcante, mas jamais invasiva.

ROSA, ALUNA DO INSTITUTO FEMININO DA BAHIA

Anna Nolasco de Macêdo

 

 

 

 

 

 

 

Fotos do acervo da família de Rosa Virgínia Mattos e Silva 

Recordar Rosa Virgínia impõe voltar aos anos 1949/1955. Usufruímos da mesma formação escolar e humana ministrada no Instituto Feminino da Bahia. Tivemos classes de Latim, Canto Orfeônico e Economia Doméstica. Jogamos baleado no recreio. Todo final de ano, havia recitais onde os alunos eram os protagonistas. Foi uma formação que deixou frutos! Aprendemos a pensar a língua e a entender os processos que ela sofre e/ou recebe no decorrer do tempo. Nos reencontramos nas nossas Idades Médias, já na UFBA. Eu, procurando agulha em palheiro, palavras de Rosa Virginia, que me orientou no Mestrado e Doutorado. Assim, a criação do PROHPOR é, creio, o florescer de uma semente lançada em terreno fértil, cultivada e regada com zelo por toda uma vida.

ROSA VIRGÍNIA E A GRADUAÇÃO EM LETRAS NA UFBA

Entre 1958 e 1961, Rosa Virgínia cursou Letras Anglo-germânicas, na Universidade Federal da Bahia. Na graduação, descobriu o seu interesse por Filologia e Linguística Histórica do Português. Em 1962, recebeu o diploma (foto). Ao longo de sua trajetória, Rosa sempre frisou o encanto e o respeito que tinha pela graduação em Letras. Mesmo sendo uma exímia pesquisadora e uma docente produtiva da pós-graduação, o seu xodó maior, enquanto professora, sempre foi a graduação. Rosa se sentia muito honrada, por poder contribuir na formação de novos pesquisadores e professores de língua portuguesa.

*O diploma de graduação de Rosa está sob os cuidados do PROHPOR.

ROSA VIRGÍNIA E NELSON ROSSI

No vídeo a seguir, a professora Jacyra Andrade Mota, colega de graduação de Rosa Virgínia Mattos e Silva, conta um pouco da relação de Rosa com Nelson Rossi.  A professora Jacyra, além de ter trabalhado com Rosa e Nelson Rossi (in memoriam), na edição do bestiário medieval Livro das Aves, coorganizou, com Rosa Virgínia e Suzana Alice Marcelino Cardoso (in memoriam), o livro "Quinhentos anos de história linguística do Brasil", lançado em 2006 e reeditado pela EDUFBA em 2016.   

ROSA VIRGÍNIA MATTOS E SILVA: REDATORA DE VERBETES DA ENCICLOPÉDIA MIRADOR INTERNACIONAL

Mailson dos Santos Lopes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um fato curioso e praticamente desconhecido da carreira da Profa. Rosa Rosa Virgínia Mattos e Silva (1940-2012) diz respeito à sua atuação como redatora de verbetes enciclopédicos. Além de ter escrito o verbete Diálogos de São Gregório para o Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa (In: LANCIANI & TAVANI, 1994), redigiu, sob a supervisão do Prof. Nelson Rossi, na década de 70, outros doze para a célebre Enciclopédia Mirador Internacional (organizada por Antonio Houaiss), que recobrem um temário de considerável amplitude da ciência linguística: Contacto, Dialectologia, Escrita, Estruturalismo, Léxico, Patologia da linguagem, Linguismo, Sapir, Saussure, Socioliguística, Tipologia e Vocábulo. Recém-doutorada, já se lançava a empreitadas desafiadoras, numa clara e temporã demonstração de sua intrepidez intelectual, que perpassaria toda a sua vida acadêmica.

* Na foto, Rosa Virgínia está sentada na ponta direita, e Nelson Rossi está sentado mais ao centro, de camisa branca, de manga. A foto faz parte do acervo familiar de Rosa Virgínia e foi gentilmente cedida ao PROHPOR.

ROSA VIRGÍNIA E PEDRO AGOSTINHO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rosa Virgínia conheceu Pedro Agostinho em 1961, quando ainda fazia graduação na UFBA e participava ativamente da Juventude Universitária Católica. Somente em 1962, Rosa e Pedro pegaram na mão e revelaram gostar um do outro. No começo desse mesmo ano, Pedro viajou ao Rio de Janeiro e, enquanto ele lá esteve,  os enamorados trocaram inúmeras cartas de amor. Em dezembro de 1962, mais precisamente no dia de Natal, Pedro pediu a Seu Mattos, pai de Rosa, a mão dela em casamento. Casaram-se em 31 de dezembro 1963 e viveram juntos até o falecimento de Rosa, em 2012. Tiveram quatro filhos: Oriana Maria (n. 1965), George Olavo (n. 1966), João Rodrigo (n. 1974) e Lianor Maria (n. 1978). 

* As fotos fazem parte do acervo da família de Rosa Virgínia e foram gentilmente cedidas ao PROHPOR. 

ROSA VIRGÍNIA E OS KAMAYURÁ

Pedro Daniel dos Santos Souza

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Ipavu - aldeia Kamaiurá, 15.8.69. Chegamos hoje pela manhã à aldeia”. É assim que Professora Rosa inicia suas notas de campo sobre os quinze dias de convivência com os Kamayurá. A ida ao Xingu, conduzida por Pedro Agostinho, intencionava a realização de observações preliminares que fundamentariam uma caracterização sistemática do português Kamayurá, projeto que desejava estender a outros grupos indígenas da região e, até mesmo, a outras áreas do Brasil. De sua participação no Centro Brasileiro de Estudos Indígenas, instituição de curta existência (1969-1970) e criada em Brasília com outros dez colegas, Professora Rosa considerava o corpus gravado na aldeia Kamayurá como uma documentação preciosa para a história da aquisição do português por esse grupo etnolinguístico e do contato linguístico no Brasil. Os relatos dessa experiência, as notas de campo e os dados linguísticos resultaram na publicação da coletânea “Sete estudos sobre o português Kamayurá”, no ano de 1988, com a colaboração de Myrian Barbosa da Silva, Maria del Rosário Albán e Pedro Agostinho da Silva. De Itapavu, lagoa centro do mundo dos Kamayurá, o “prêmio celestial” do banho ao entardecer, adjetivação por ela utilizada... E o desejo de que tudo continuasse a ser como era, os Kamayurá recebendo os bens que lhes pudéssemos dar, mas sem se deixarem destruir por tantas mazelas biológicas ou socais que lhes pudéssemos legar.

* As fotos fazem parte do acervo da família de Rosa Virgínia e foram gentilmente cedidas ao PROHPOR. 

ROSA VIRGÍNIA E AS RELAÇÕES ALÉM-MAR

Ana Maria Martins

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rosa Virgínia Mattos e Silva tinha em Lisboa importantes laços familiares, académicos e de amizade, fortemente ligados entre si, dada a personalidade da Rosa, para quem ciência e afetos cabiam no mesmo universo. Luís Filipe Lindley Cintra, Maria Helena Mira Mateus, e Rosa Virgínia Mattos e Silva tinham entre si uma história longa de relações de trabalho, amizade, respeito e admiração mútua, que estão na génese de uma rede mais vasta de ligações entre a Bahia e Lisboa. Várias gerações de estudantes da Universidade de Lisboa puderam conhecer a Rosa e aprender com ela; algumas das suas principais obras foram publicadas em Lisboa, pela INCM; por sua iniciativa, Tânia Lobo, Dante Lucchesi, Mariana Fagundes de Oliveira, entre outros, estudaram em Lisboa; a seu convite ensinaram na UFBA Maria Helena Mateus, Ivo Castro e eu própria, que pela mão de Ilza Ribeiro pude também viajar até Feira de Santana e aí conhecer colegas que muito estimo. As relações transatlânticas de Rosa Virgínia Mattos e Silva foram fortes, regulares e deram frutos que se renovam no tempo, tal como a obra da Rosa e o mais que a sua personalidade ímpar nos legou.

 

* Na foto, Rosa está acompanhada do professor Lindley Cintra e outros colegas em Portugal. A foto faz parte do acervo familiar de professora Rosa e foi gentilmente cedida ao PROHPOR.

ROSA VIRGÍNIA E O DOUTORADO NA USP

 

Em 1971, Rosa Virgínia Mattos e Silva defendeu a sua tese de doutorado "A mais antiga versão portuguesa dos Quatro Livros dos Diálogos de São Gregório", na USP. A tese foi feita sob a orientação da professor Isaac Salum. Em 1972, recebeu o diploma.

ROSA VIRGÍNIA E A TRAJETÓRIA NA UFBA

 

Crachá da UFBA, instituição em que Rosa Virgínia atuou como professora, de 1973 até 2012, ano do seu falecimento.

 

ROSA VIRGÍNIA E O PORTUGUÊS ARCAICO

Neste vídeo, a professora Juliana Soledade, atual coordenadora do PROHPOR, comenta a relação de Rosa Virginia com o português arcaico. Em alguns dos seus livros sobre a morfologia do português arcaico, Rosa destacou a importância de serem estudados fenômenos morfolexicais, como a sufixação, a prefixação e a composição no referido período. Desde então, essa investigação tem sido um firme propósito do subgrupo de Morfologia e Lexicologia históricas do PROHPOR, que conta com quatro pesquisadores: Juliana Soledade, Antonia Santos, Mailson Lopes e Natival Simões Neto.

Endereço:

Av. Ademar de Barros, s/n°

Campus Universitário de Ondina
Salvador, BA | prohpor.ufba@gmail.com

 

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